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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Floresta Encantada

Desta vez ela me mostrou o caminho: eu só decidi por tirar a cor. Acertei, porque veio com tudo a forma, a linha, o traço e a luz.
       Depois foi só perceber para onde é que ela olhava com mais gosto.
Apareceu a floresta encantada !


        



























domingo, 11 de maio de 2014

In memorian...


Partiu para sempre a companheira de viagem.  Morte por afogamento nas águas salobras do Delta do Parnaíba. A última imagem antes da morte registra a terra de onde partiu e para onde não voltou. Maranhão, terra de encontros e de intensidades. Acontece. As vezes o barco é pequeno demais para o oceano, as vezes a carga é muita pro barco, as vezes o sonho é maior que as pernas.
Existe também a surpresa: o mar cresceu depois de quase dez quilômetros viajados cruzando a baía de Tutóia rumo às águas abrigadas do Delta. Dois homens, motor, vela e remo, todas as posses embarcadas. Com o mar que cresce, a sobrevivencia chama também a crescer a atenção. Muito vento, ondas desencontradas, a pancada do mar empurra água pra dentro, é preciso avançar.
A máquina é mais falível que o homem: molhado pelo mar, chacoalhado pelo alvoroço, o motor  criatura mecânica emudece de vez. Deixar derivar até à costa não é solução, as ondas quebrando e pontudos tocos não convidam a porto, trituram homem e barco. Decidir voltar, o objetivo já não está à frente, mas atrás. Preservar a vida, a bagagem, a embarcação.
Vento duro, mar grosso, água entrando. Tirar o motor, amarrar tudo, abrir a vela, subir o mastro. Nenhum segundo perdido, nas horas limite é preciso de tudo, toda a força, toda a resistência, toda a inteligência, todo o material, toda a calma, não desistir.Por fim a vela em cima e o rumo certo, apontando para a praia da partida. Poucas horas e os pés já pisam a areia dura. Ufa...
Mas acionar o "ON" já não surte efeito. Tira e põe bateria e lente, ilumina e aquece, o esforço desesperado de ver acender o painel. Já não há sossego, já não se pode engolir as belezas que se vê,  já não se pode consumir. Milhares de quilômetros, milhares de imagens, a receptiva criatura que registrou todas as cores destas páginas descansa em paz. Destino cumprido. É doce morrer no mar...
 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O barco ?

É meu modo de conversar com o oceano.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Tradição a 12 Nós...


A terra da luz é também a terra do mar, do peixe e do vento. E dos barcos. Eles são muitos e muito caprichados e coloridos. Aqui sobrevive a tradição da construção artesanal de embarcações de madeira, à vela, que podem chegar a dezenas de metros de comprimento e a passar várias semanas no mar. Sem projeto, sem bússola, sem mapa e sem motor.


O município de Camocim tem o maior número de embarcações per capita do Brasil. E o porto mais bonito de todos ! Se estende por alguns quilometros próximos à foz do Rio Coreaú, e é espetáculo de vida, formas e cores, emolduradas ao fundo pelas dunas da Ilha do Amor
Estrategicamente distante algumas poucas centenas de kilometros do Equador, a costa cearense escapou das calmarias da zona equatorial e desfruta plenamente do vigor e constância dos alísios, que impelidos pela rotação da Terra sopram fortes e constantes em uma direção NE-SW.
A geografia da região foi moldada a partir da extensa Formação Barreiras, uma extensa camada de rochas sedimentares areníticas que ocupa toda o setor leste da Costa Norte do Brasil. Ao longo de milhões de anos da ação de ondas e vento, as rochas da Formação Barreiras foram se transformando em   incontáveis toneladas de areia, que foram sendo expostas aos ventos à medida que o nivel do mar regredia  nas ultimas dezenas de milhares de anos. Arrastadas pelos fortes alísios, a areia da Fomarção barreiras deu origem às abundantes e belíssimas dunas da região, que caracterizam o relevo da costa e emolduram os coqueirais e pitorescas vilas de pescadores. Cenários de sonho.
Embaixo d´água, as dunas tem seu alter ego submerso: bancos de areia, muitas vezes quilometros distantes da costa, povoam os pesadelos dos navegantes que temem soçobrar em alguma maré seca. Encalhar em um  banco destes pode significar a destruição da embarcação, à medida que as fortes ondas suspendem o barco e o arremessam contra o fundo arenoso.
A baixa latitude proporciona marés amplas, de até 2,5 metros de amplitude, o que pode produzir situações muito peculiares na maré seca, como imensos barcos repousando placidamente na areia ou praias onde não se vê o mar. A praia de Arpoeiras, em Acaraú, é extremamente rasa, e na maré seca é preciso andar vários quilômetros para molhar os pés. Nestas situações, nativos mais ousados chegam a percorrer vários quilômetros, em alta velocidade, a bordo de carros movidos à vela.
A tradição náutica na região remonta aos indígenas costeiros, que chegaram ao continente há mais de 15000 anos. Estes desde cedo aprenderam a dominar o mar em suas canoas e jangadas feitas com troncos de árvores, enriquecidas pelas velas triangulares trazidas por colonizadores europeus. Com a abundante e nobre madeira tropical essa mistura deu origem a dezenas de tipos de embarcações, que fazem desse trecho da costa Brasileira um dos mais férteis celeiros de embarcações tradicionais do mundo.

 Jangadas, paquetes, botes bastardos, canoas costeiras, bianas, baiteiras. Aqui o processo orgânico e tradicional de desenvolvimento tecnológico, baseado na transmissão oral e prática do conhecimento do mestre para o aprendiz, originou diversas variações, onde cada porto tem seu tipo peculiar de embarcação. A cultura humana mimetiza a evolução biológica, onde cada contexto molda a evolução de formas específicas que foram selecionadas por muitas gerações de provas reais entre mar, vento e peixe. Um barco de outra praia dificilmente passa despercebido, pois as diferenças de dimensão e desenho terminam por denunciar sua origem. Toda a estrutura é feita a olho, sem régua nem projeto: o mestre arma as primeiras peças e através de ripas longas e flexíveis vai encontrando a curvatura que deseja para as peças intermediárias. Aos poucos vai rebatendo as medidas encontradas para o bordo oposto, e devagar as cavernas que formam o desenho do casco vão sendo tomando forma. Em seguida as tábuas do casco são presas, sem cola nem parafusos. Pregos galvanizados cuidadosamente batidos seguram estas peças que usualmente vem das florestas do Maranhão e Pará. Os pequenas espaços entre o tabuado  do casco são preenchidos por estopa de algodão e uma massa feita de óleo de mamona e cal, sob o som seco e agudo das batidas do martelo de calafate. Com algumas camadas de tinta de cores vivas o casco recém feito pode ir para a água e começar seu trabalho, levando homens ao mar e trazendo peixes para terra.
 Para o mastro o manguezal fornece as peças curtas, que unidas por grossas linhas de nylon compõe um mastro resistente e flexível, que dobra sem quebrar nas rajadas mais fortes, dispensando o excesso de potência do vento. A vela, ou pano, geralmente é feita pelo próprio pescador a partir de tecido comum de algodão, corda de nylon e linha de algodão, encerada com cera de abelha, dobrada  e torcida com paciência. Os modelos e mastreações também variam: há as velas chamadas quadradas, as redondas, triangulares, as armações em carangueja e bastarda. Linha de algodão revestida com cera de abelha costura o pano das velas e o une fortemente à cordas de nylon. Estas são presas, pelos punhos, ao topo do mastro e à ponta da “tranca”, peça horizontal articulada ao mastro que sustenta a parte de baixo da vela.

Apesar da rusticidade estes artefatos exibem uma performance invejável: passam  dos 12 nós de velocidade (um veleiro de cruzeiro, quando passa dos 6 nós já está comememorando). As proporções da vela, especialmente nos majestosos botes bastardos, se assemelham muito à das sofisticadas velas comerciais. O conjunto, casco, vela e homem, torna-se estável, confiável e com sorte e bom tempo trazem muito peixe à terra.
 As viagens de pesca são improvavelmente longas: uma tripulação de geralmente 3 pescadores pode passar mais de uma semana em uma pequena canoa aberta (sem convés), munidos apenas de linhas, anzóis, uma caixa de gelo, um botijão de gás para a iluminação noturna (alerta para outros barcos e navios), um braseiro para assar o peixe recém pescado e um rancho simples de farinha d'água, café, açucar e óleo. Para dormir, pedaços de rede atados de um bordo a outro da canoa, e as estrelas por cobertor. No chuvoso inverno da região pedaços de lona plástica protegem o corpo cansado de parte da chuva.Os botes maiores, dotados de um convés baixo e maior capacidade para enfrentar o mar e carregar mantimentos, chegam a ficar várias semanas em alto mar. Rojões anunciam a sua chegada na barra, e as famílias, curiosos e compradores de peixe se aglomeram conturbadamente à medida que os cascos tocam a areia.
No porto, as famílias esperam ansiosas o retorno de seus pais, irmãos e maridos. Se deram sorte, chegam ao porto com tremendas feras, camurupins, cações, meros e arraias que podem atingir centenas de quilos, capturados apenas com enormes anzóis e linhas resistentes, seguras diretamente pelas mãos calejadas, sem varas ou molinetes.
 As comunidades costeiras da costa do poente produzem e reproduzem uma cultura generosa e peculiar, onde a mudança das dunas e das barras de rios, e os altos e baixos da pesca são refletidos no comportamento flexível, festeiro e na despreocupação com o compromisso, estabilidade e resistencia das coisas. Berço privilegiado da “gambiarra” e dos excessos na comida, bebida e amores, entre os nativos a técnica precisa e sofisticada de construção, pesca e navegação contrasta com a inabilidade dos nativos em planejar e entender as mudanças externas que ameaçam e minam sua sobrevivencia . Tudo muda rápido por aqui. A cor e fisionomia do pescador varia com a exposição ao sol e a abundância de alimento. Seu humor, com o sucesso na pescaria. O chão, com o vento ou com a maré, que muda dunas e barras de rios de um lado para outro, rápido. A incerteza vai com o homem no mar e o espera na volta ao porto. A flexibilidade e capacidade de adaptação, presente nos mastros e no caráter, está sempre presente. Enquanto os homens e barcos do litoral dos extremos do litoral cearense resistem às ameaças do mar e do progresso, nossos sentidos agradecem e desfrutam o espetáculo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Chuva no sertão

       Exatamente agora chove no Sertão dos Crateús. Assim como em todo o semi-árido brasileiro, três anos de seca fizeram os açudes secarem e os conflitos pela água se acirrarem. A guerra pela água já existe no Brasil, e aqui perto teve acampamento de 300 em parede de açude para impedir a liberação de água pro município à jusante!
         Estes dias choveu, 100mm foram suficientes para pintar a paisagem de verde e o fundo de alguns açudes com água. Percebe-se no ar molhado a alegria e a esperança que todas as criaturas aqui ganham imediatamente junto com as gotas de água que caem.
Por isso, ver a chuva que pode ser a salvação da lavoura começar a cair bem diante dos meus olhos significa muito. Dura pouco, tanto quanto o tempo que se leva para escrever estas linhas: já não chove mais. Pedaços do céu ja estão azuis de novo, não há mais vento. Voltar ao trabalho. Dizem que ter esperança de algo que a gente ja está vendo não é esperança...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Na duna não há meio termo...

     Este mundo é mesmo maluco: o alto da serra, que ja foi fundo de lago, se desfaz agora em areia e inaugura um pequeno deserto no meio de muitas águas. Eu que hoje acordei e tomei um banho de rio, um rio enorme e com água muito limpa, fui lançado no topo da duna.

    Nas horas quentes do dia dividir alguns metros de sombra com o pequeno lagarto. Nutritivas mutucas disputando o sangue do grande mamífero. Convivência cria intimidade, de desconfiado o réptil chega perto para chegar perto das mutucas, o grande mamífero, sonolento, tolera a pequena criatura.  Estes dias esperando alguma coisa em algum lugar eu vi na tv um leão enorme e feroz cercado de mutucas, e um pequeno lagarto chegando perto para comer os insetos. No melhor momento o lagarto ágil subia na pata do leão e abocanhava uma gorda refeição. Incrível, nunca tinha visto. Enfim o meu dia de leão: o réptil atrevido sobe em mim, come uma gorda mutuca e corre saltando pela areia quente. Na duna é assim, do inferno ao paraíso em segundos.


Radiação solar, calor, luz, areia, vento, silêncio. Humanos próximos? a dezenas de quilômetros. Espaço amplo fora, vira do avesso e deixa o pensamento e a consciencia muito mais espaçosos tambem. Três dias e três noites !

     Sombras que se alongam, no fim do dia o corpo quente encontra de novo a água do rio, mas agora é outro rio, mais raso, menos água e mais areia, mas também limpa e refresca do mesmo jeito. Não há mais o duro sol, e nem o calor. Tudo é muito mais leve agora. Estou limpo e seco, e caminho descalço sobre a areia morna e delicada, entre águas e buritis. O mesmo alto de serra que fez a areia faz agora uma lua imensa e cheia, que olha bem de frente um colorido de sol que se põe. Em pé, sobre um outro alto, mas que não é tão alto quanto o alto da serra, olho tudo isso acontecendo bem ali na minha frente, e presto bastante atenção. Amanhã eu vou tentar subir a serra pra ver isto tudo lá de cima.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Pau que nasce torto...


        Algumas coisas fazem a existencia valer a pena. Para a minha, transformar madeira bruta em
barcos é uma delas. A nave em gestação é um pequeno veleiro, que tambem navega a remo, de nome  Loki, o deus nórdico do fogo e da travessura, escreve certo por linhas tortas, traz a paz pela destruição. Auto-identificação ?

       O casco de curvas muito suaves pede peça que acompanhe a curva. Madeira reta, aparelhada, que se compra em loja, não serve. Tem que achar galhão ou tronco que já nasceu torto, à moda antiga.

       Entre tantas, tenho sorte: o trabalho de consultoria na zona costeira uma vez me levou à Praia de Leste, que fica bem onde o grande Ribeira de Iguape entrega suas águas ao oceano.  Com as águas do grande rio, milhares de troncos arrancados de suas margens vem dar à praia. O resultado, em vez de áreia muita madeira! Raciocínio é conexão:buscar matéria prima para Loki na Praia de Leste !

      A idéia esperou a hora certa: depois de meses de espera, hoje voltei à região para continuar o
trabalho. Após o cumprimento da missão formal, já quase as 5 da tarde, decidi voltar a Praia do Leste, desta vez munido de ferramenta pra caçar madeira, na hora e meia de luz que teria, e com a maré subindo.

        Ia olhando e olhando, provando madeira com serrote pra ver se prestava. Corta e nada, corta e nada, e finalemnte achei uma razoável.Cortei. Achei outra, cortei. E quase no escuro, água
batendo na canela, achei a terceira ! Finalmente a madeira nobre, do jeito que eu queria, de fino grão, compacta, firme e cheirosa, rosada. Esforço vigoroso, extenuante, os dois braços empenhados, corpo inteiro, serrote trabalhando nervoso, porque muita madeira e pouco tempo. Sucesso! As estrelas chegaram e eu ja tinha 4 belas peças.

       No glorioso crepusculo, missao cumprida, e o retorno ao pouso com o carro carregado de matéria prima para concretizar sonhos. Loki vai ganhando corpo, história e personalidade.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mar de Potenciais


            Voltar ao Lagamar tantos anos depois com a insólita missão de prospectar, entre as dezenas de pequenas e isoladas comunidades caiçara, potenciais para ação coletiva pela sociobiodiversidade, soa no mínimo auspicioso. E navegando a braço, vento e maré: nenhuma gota de petróleo seria queimada nas duas centenas de kilometros percorridos em baías, rios e canais a partir do porto de Cananéia.


           Pessoas, grupos, talentos, tecnologias tradicionais, cultura, pescado, artesanato, alimento, ações coletivas pela sociobiodiversidade costeira e ribeirinha. Pólen que as vezes por falta da abelha não concebe frutos, sementes que por falta do pássaro não vão longe. Potenciais que por não se conectarem, não se realizam. Problemas que persistem, socioecossistemas que se extinguem.


            Autonomia total: o kayak tradicional esquimó e a canoa caiçara levariam alimento e abrigo. Onde chegasse, poderia ficar. Carregado, parto em uma manhã chuvosa do porto de Cananéia.



         Na Enseada da Baleia, grupo de mulheres artesãs em tecido, e douradas postas de tainha seca e salgada, o bacalhau caiçara. Tecnologia tradicional local, desse jeito só aqui. Só que morreu seu Malaquias, e ninguém mais faz. Mas ainda sabem fazer. No Varadouro tem Zé Pereira, conhece a mata e a árvore, constrói canoa, rabeca e viola, toca fandango, já ouviu falar ? Lá eles tem variedade de arroz e mandioca que só tem lá. Uma pena que o Varadouro tá sumindo: das 12 familias em 7 anos restaram 4. E no Ariri, tem produção tradicional com piaçava, tem cestaria elaborada, tem associação de moradores motivados, mas que ainda não conseguiram montar projeto. No povoado quilombola do Mandira o seu Chico tava contando como ele fabricava os pitos (cachimbo) de barro fumar o tabaco plantado ali. Do mesmo jeito que seus avôs escravos. Contou também que o caboclo incauto pediu ao índio um pau (penis) seco de quati pra energizar suas práticas amorosas: depois de seco no sol o pau do quati fica rígido como madeira, e raspado e bebido na água, se converte em poderoso afrodisíaco. O índio esperto, que não achou o quati, vendeu ao caboclo um pedaço do cipó timbupeva cuidadosamente esculpido à moda de pau de quati (Chico complementa que a característica distintiva do timbupeva é que ele cresce de cima pra baixo): pobre caboclo, vai emprestar da beberagem o comportamento do cipó... Em outra variação, o índio esperto vende ao caboclo incauto um pau de cachorro do mato, bicho que vagueia nômade, incansável. Previsível: o caboclo não parava mais em casa... E no Marujá embarcar pra pescaria de canoa e rede com Seu Salvador: olhar a geografia da gamboa, achar o poço ou o baixio ou o focinho. Olhar o peixe, o sinal dele na água, fazer silencio. Soltar a rede, estratégicos e cuidadosos. Bater na água com o remo. Puxar a rede, recolher peixe brilhando agitado para comer no almoço. E veio ! Do canal olhar o rio vindo do  morro e decidir caçar a cachoeira. Encontrar róseos e enormes guarás pousados no galho do mangue, como outras tantas e multicoloridas bromélias também pousadas, encurralar cardumes de paratis junto com o grupo de botos, olha a tartaruga embaixo do barco ! E todos os dias o sol nascendo e se pondo, sumindo e dando lugar à o sol de novo. Céu de azul profundo muito estrelado, lua crescente, no movimento da água a noite brilham criaturas, bioluminescência que desafia a razão. Areia muito acolhedora da praia e da cachoeira, espaço luxuoso para o respirar, o tracionar, o torcer, o fletir do corpo. Escutar, concentrar,  hiperconsciência.
      

         O maior dos potenciais: a convivência. Generosa, interessada, divertida. Sim, no amalgamar das culturas "neo-tradicionais", o diálogo intercultural é necessário e pode ser produtivo. Fluxo livre de informação: os mundos devem, no mínimo, conhecer-se.
       

          Cem mil remadas. Precisar chegar, movido a corpo. A proa do barco riscando a água, um dos nomes de Deus. Barco também é movido à atitude, paciência faz chegar mais rápido. Mira-se o horizonte, mira-se a proa, monitora-se o esforço, a resposta do barco, ajusta-se tudo, muitas vezes.
       

          Encontrar potenciais, aqui e lá, costurar, tecer. Viagem complicada, idéia que nasce no asfalto encontrando seu sujeito à beira d’água. Finalmente fazendo sentido. Seu Chico entendeu a idéia: “é, essa sua amarração aí pode ser que de certo...”


sábado, 15 de dezembro de 2012

Remada perfeita



Na remada perfeita todo esforço é canalizado ao movimento. Todo movimento, dirigido ao destino.

Humano, remo e barco não estão mais separados:
foi criada uma nova criatura, híbrida, deslocadora sobre a superfície.

A pá empurra a água, desenha espirais e redemoinhos. Não se bagunça, o barco não balança. Casco esguio roçando silencioso a água. 



A consciência é toda atenção. A ocupação é ir, da melhor maneira. O rendimento é máximo.

A remada é o dia e a noite. É a semana, o ano. É cada respiração. Todo e qualquer ciclo vital. É o piscar do olho, o nascer e morrer, o começar e o fim, o chegar e partir.

Nenhuma remada é igual a outra.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Conexão:

s.f.

1. Ligação de uma coisa com outra; união.

2. Enlace ou vínculo entre pessoas ou entidades.

3. Nexo, relação de dependência.


(Nesse mundo de coisas, tá tudo ligado com tudo.
Mas algumas coisas são mais conectadas do que outras...:
silenciosa mensagem do Universo...)

 ...

domingo, 19 de agosto de 2012

Partir:

v. tr.

1. Dividir em partes, separar.

2. Quebrar.

3. Repartir; distribuir.

4. Ter origem ou começo; proceder; provir.

domingo, 20 de maio de 2012

Do solo árido ao céu

Eis que a gota de chuva pura bate no solo fértil
que, paciente,
aguardava seco.

Levanta poeira, produz lama, alimenta esperança
nos que sabem que a semente jaz.

- Cuidado com a lama, lavrador, espera a semente chupar a água,
que o broto vem !

A semente dura guarda o futuro, aberto.
Que realiza no encontro com o vento e o sol.
É veneno ou é remédio ?
É vida.

O broto, de deitado e revirado aponta agora pra cima, pai da chuva.
qual os braços do lavrador, que de olhos fechados
faz agora a chuva cair dos olhos quentes.

A gota pura, espremida do céu,
misturou tudo e mostrou o sentido !

Insha'Allah !

(mais, mas diferente, em:  http://redecocriar.blogspot.com.br/2011/09/co-criacao-da-beleza.html )

terça-feira, 3 de abril de 2012

Flagrante

Floresta na Mantiqueira, sábado passado, encara de frente o Atlântico e oferece toneladas de água fria e puríssima.

Ao mesmo tempo, serra acima, a exuberante confusão da floresta cede espaço à rocha, ao campo e ao frio. E à beleza delicada de mil plantinhas e flores, e do horizonte silencioso das altitudes nuas de árvores, à dureza da pedra sob os passos vigorosos necessários para desfrutar do espetáculo.
Olha a névoa marinha batendo no divisor da serra ! Vai virar água e cachoeira.

Nesse mundo de coisas, tudo acontece agora. Impossível ficar parado!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mundo de coisas...

Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente — o que produz os ventos.

G. Rosa, Grande Sertão: Veredas